A gorda e a cadeira




Todo mundo diz:
-Você tem que se aceitar como você é.
Mas e você, me aceita?
Se aceitasse não estaria me dando endereço de bons nutricionistas, de boas dietas (sem eu pedir), não estaria dizendo que cabelo loiro não combina com as afros descendentes, não diria que aceita os gays, mas que eles não precisam andar de mãos dadas na rua e tiver beijos em público ainda pior.

Tem certeza que nossa sociedade nos aceita? NÃO. NÃO E NÃO.
Então como  podemos nos aceitar assim tão facilmente?
E se aceitar não quer dizer ficar assim pra sempre, eu me aceito gorda e quero emagrecer por vários motivos e enquanto esse emagrecimento não chega eu vou a praia, uso biquíni, uso roupas normais, faço academia enfim, tenho uma vida normal.
Mas não é fácil, não se acha roupas facilmente, as que achamos são caras e as menos caras, são como saco de batata com alguns buracos pra enfiar os braços e o pescoço.
Hoje em dia ter um cabelo cacheado já é mais fácil, temos bons produtos no mercado, mas anos atrás não era não.

Porém, mesmo me aceitando, acredito que uma pessoa não deva chegar em mim e dar um endereço de uma nutricionista sem eu pedir, sem ela saber se tenho interesse e a empresa onde trabalho não deveria vir com uma cadeira especial para gordo sentar no horário de trabalho.
O mínimo que deveria ser feito era perguntar se queríamos a cadeira.

Olha, estamos comprando algumas cadeiras mais confortáveis, mais resistente para quem esta a cima do peso e se você aceitar uma delas será sua.
Eu com certeza diria sim, adoro novidades, adoro conforto e pegaria feliz e contente uma cadeira dessas.
Fora que eu trabalho em uma área da empresa (trabalho em um setor público), que eu não tenho uma mesa minha, nem cadeira, nem computador nem nada, o espaço é amplo e aberto.

Conheço uma pessoa que não aceita o peso que tem, não gosta que diga que ela é gordinha, nem espelho de corpo inteiro ela tem, o único espelho da casa dela é o do armarinho do banheiro. Fico imaginando esse menina recebendo essa cadeira e tendo que usar. Fico imaginando o peso dessa cadeira na sala em que ela vai trabalhar.
Ela vai sentir como se tivesse um holofote em cima dela.
E quantas piadinhas não vão acontecer sobre a tal cadeira, uns vão levar a piada de boa, outros vão logo estressar com o piadista e encerrar o assunto e outros vão ficar remoendo as piadas a cadeira e com talvez alguns quilos a mais na balança.

Não empresa, não é assim que se faz. Não é assim que se ajuda.



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3 comentários

  1. Renata Borges08 janeiro, 2017

    Acho que um dos maiores problemas que envolve a auto aceitação é justamente esse: o modo como os outros nos tratam. Pode parecer balela dizer que somos de ferro e, por mais forte que alguém seja, é difícil não se abalar com as mazelas da vida. Porque a vida é, felizmente ou não, em sociedade e querer ser aceito tem de vir de dentro. Se impor nunca foi e nunca será uma tarefa simples.
    A atitude da empresa pode até parecer louvável sob um primeiro olhar, mas custava passar uma lista que fosse, disponível para todos os funcionários, que permitisse que cada um avaliasse a sua necessidade de requerer ou não o item.
    É muito complicado avaliar a necessidade do outro sem ao menos questioná-lo por isso.
    Adorei a reflexão da sua postagem!
    xoxo

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  2. Moça, que coisa forte! Eu também sou gordinha e sei como é ter as pessoas falando que tu tem que emagrecer, que ser gordo é coisa de preguiçoso. Eu tenho rotina de academia, mas você vê que os professores dão muito mais atenção as magrinhas malhadas do que a quem tá tentando melhorar de vida. Então eu tive muitos problemas em me aceitar, eu mudei minha forma de comer e tenho problemas sérios de estomago por causa disso. Ser gorda não me fez infeliz, mas lidar com as consequencias da pressão da sociedade sobre mim estão sendo muito dificeis.

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    1. Pois é Mariana, o problema maior realmente não é a nossa aceitação, mas da sociedade conosco. E não só com as gordinhas não, mas com tudo que as pessoas acham estranho, esquisto e diferente. E apesar das campanhas que hoje se vê na TV, nos outdors, na internet, estamos longe de uma realidade mais bonita e mais humana. Bjs

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